quarta-feira, 14 de outubro de 2009

HOMENAGEM AO MEU TIO

O título deste texto pode parecer-vos algo estranho. Porquê andar aqui a prestar homenagem a um elemento da minha familia? É simples, é que o meu tio foi nosso companheiro das mesmas "guerras" e "aventuras" durante a nossa permanência em Luatize. Era furriel e pertencia ao pelotão que o Batalhão de Tenente Valadim, tinha destacado para aquela zona, e que nos receberam quando lá chegámos.
Talvez haja ainda alguém que se lembre. Por isso, e pela obrigatória e sentida homenagem que aqui lhe quero prestar, indico os nomes, a saber: Fur.Azevedo (c/seta); Alf.Seabra (ao centro em baixo); Fur.Coimbra (ao centro em cima) e o "infiltrado" Castro (lado dir.). Falta ainda o Fur.Damas (julgo que era de Mira). Foram excepcionais comigo, sempre disponiveis para ajudar. Lembro-me até que me arranjaram umas instalações bastante impróprias, mas era o que havia (anos antes tinha sido o local onde guardavam sacos de farinha) para poder desempenhar a contento a arte da criptografia! Mas com umas boas lavagens e afastamento de milhões de roedores, aquelas ruínas transformaram-se quase num palácio!
Tudo gente boa e ainda me recordo da forma como foram inexcediveis no apoio que, dentro do possivel, tentaram prestar, noite adentro, ao infortunado Marcelino naquele fatídico 23Junho69.
Voltando ao meu tio Azevedo, é uma história igual a tantas outras, só achando graça, talvez por ser única, em todos os teatros de guerra do nosso império!!
Conhecio-o por mera casualidade, conforme podia não o ter conhecido! Acho que foi logo após a chegada a Luatize. Segundo os meus apontamentos foi no dia 22 de Junho 69. O nosso radiotelegrafista milagreiro Moreira, depois de lhe terem dado um casinhoto escuro e sujo, conseguiu instalar e sintonizar a muito custo aquela geringonça do radio, pois era hora da final da taça de Portugal em futebol entre Académica-Benfica (1-2). No meio do barulho ensurdecedor e de todas aquelas interferencias (assim a modos fundo dum poço) lá iamos conseguindo ouvir qualquer coisita, por vezes audível). Nessa altura aproximou-se de nós um furriel do pelotão "dos outros" e pediu licença para tb. ficar a ouvir o relato. Foi aí que o Moreira se me dirigiu, dizendo: "Oh Castro...........". E, fosse lá o "feeling" que fosse, logo de imediato o tal furriel se me dirigiu e indagou: "Eh, pá desculpa lá, mas tu chamas-te Castro? E de onde és tu, pá? Curiosamente, logo lhe respondi: "Sim, meu nome é Castro e sou da Parede, perto de Lisboa". Mais perguntas menos perguntas que agora pouco interessa, aconteceu qualquer coisa deste género: "Oh, meu querido sobrinho vem aos meus braços! Eu sou teu tio!!"
Por indicação dos meus pais, realmente eu sabia, assim como ele, que havia um sobrinho e um tio destacados em Moçambique, ao mesmo tempo. A curiosidade é que não nos conheciamos, nunca nos tinhamos visto. Ele morava em Albergaria-a-Velha e eu na Parede. Talvez a distancia e a independencia da vida de cada um de nós contribuissem para esse resultado.
Foi realmente algo "sui-generis" e muito agradável. A partir daqui estivemos 24h/24h em contacto directo, vivendo ambos os graves problemas que nos aconteceram e que são do conhecimento de todos. Lembro até que após a refrega do ataque a Luatize ainda lhe dei uma ajuda chegando-lhe granadas para o morteiro que ele, na zona da cantina, segurava nos joelhos
disparando na direcção que ele entendia que os "fugitivos" percorriam.
Após a nossa chegada à Metrópole, continuámos a nossa grande amizade, nascida em Luatize, e tinhamos contactos assiduos, apesar de morarmos em locais diferentes. Nos ultimos anos, desde 2002, passamos até a viver na cidade de Lagos. E foi aqui que passamos horas e horas a fio, descontraídamente, em franco convívio, falando sobre as "aventuras" passadas no Indico.
Infelizmente, mais precisamente em Julho deste ano, faleceu, precocemente, com 64 anos, de doença prolongada. Perdi um ex-companheiro, um grande amigo que foi sempre um grande Homem. Ainda acho isto muito estranho e sinto-me mais triste.
PAZ ETERNA A UM BOM HOMEM QUE FOI O MEU TIO AZEVEDO.

4 comentários:

  1. Castro
    Lembro-me vagamente do pessoal que estava connosco em Luatize. Recordo-me de jogarmos às cartas e ao poker numa mesa que fizemos com as tábuas das caixas do bacalhau junto às nossas tendas. Também lá encontrei um amigo de Castelo Branco, penso que era furriel, a quem eu chamava "Tonho". Parece que foi ele que num ápice despachou as granadas do morteiro 81 no dia do ataque. Infelizmente, o teu tio Azevedo e todos nós fazemos parte duma "HISTÓRIA" que nos obrigaram a fazer e que nos querem obrigar a ignorar. Um abraço c/ apoio

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  2. A propósito dum acontecimento doloroso, o caríssimo A. Castro produziu uma crónica magnífica, onde alia o fino recorte literário a uma profunda humanidade, sem fugir à verdade histórica, como podemos constatar nós que vivemos os acontecimentos.
    Confesso que não me recordo do seu Tio, a quem presto homenagem: apenas me lembro do "barbudo" Seabra.
    Associo-me ao seu pesar e bem haja pelo seu testemunho.

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  3. Ao deambular pela NET, deparei-me com o blog da CCAV 2415 e, nomeadamente com o artigo da homenagem ao ex-furriel miliciano Azevedo, que pertenceu à CART 2372, à qual eu tambem pertenci como ex-Alferes Miliciano.
    Tambem eu passei pelo Luatize com o meu pelotão e também nós provámos as morteiradas da Frelimo em 25 de Novembro de 1968.
    Mas, neste momento, o meu pensamento vai para o Azevedo, de cuja morte tomei agora conhecimento, embora soubesse pelo Damas que já estava doente há algum tempo.
    Recordo o Azevedo como um rapaz calmo, sempre correcto com todos, amigo dos seus soldados e sempre disposto a colaborar na solução de todos os problemas.
    Após o regresso, em 1970, apenas por uma vez voltei a vê-lo, salvo erro em Viseu, num dos convívios da nossa Companhia.
    Um até sempre para o meu amigo Azevedo e saudações para todos os elementos da ex-CCAV 2415 que, tal como eu, pisaram as picadas de Valadim e Luatize.
    Antonio Nunes

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  4. Amigo Castro,
    Desculpe a intromissão no seu Blog específico,somente para reforçar a opinião do seu amigo José Gonçalves:
    Realmente Maputo está bem diferente, pela positiva, da Cidade/ Capital, que já não
    visitava há cerca de 5 anos.

    Um grande abraço, Molarinho da Costa

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